A maior usina elétrica do mundo fica na China

No ano de 2018, uma única usina elétrica produziu mais energia do que as maiores usinas do mundo movidas a carvão e a gás juntas. E, ao invés de utilizar combustíveis fósseis finitos, essa usina contou apenas com uma fonte de energia comprovadamente renovável: a água corrente. Estendendo-se por mais de 2,3 km, a hidroelétrica das Três Gargantas, na China, não recebe apenas o título de maior do mundo, mas é capaz de produzir mais energia do que qualquer outra usina elétrica de nosso planeta. Mas o que permite que ela gere tanta energia?
Publicado em Mundo dia 24/08/2021 por Alan Corrêa

No ano de 2018, uma única usina elétrica produziu mais energia do que as maiores usinas do mundo movidas a carvão e a gás juntas. E, ao invés de utilizar combustíveis fósseis finitos, essa usina contou apenas com uma fonte de energia comprovadamente renovável: a água corrente.

Estendendo-se por mais de 2,3 km, a hidroelétrica das Três Gargantas, na China, não recebe apenas o título de maior do mundo, mas é capaz de produzir mais energia do que qualquer outra usina elétrica de nosso planeta. Mas o que permite que ela gere tanta energia?

Como funciona uma usina hidroelétrica?

Para começo de conversa, como funcionam as usinas hidroelétricas? Basicamente, uma usina hidroelétrica é uma enorme barragem com um portão enorme. Essa usina capta e redireciona o fluxo natural de um rio através de um conduto para uma turbina hidráulica.

A água corrente assim direcionada, flui por esse conduto e gira as lâminas da turbina, a qual está ligada a um gerador numa central adjacente. A rotação das lâminas gira as bobinas de fio dentro de um campo magnético, sendo assim capaz de produzir um suprimento de energia elétrica constante.

Hidroelétrica das Três Gargantas, na China
Hidroelétrica das Três Gargantas, na China

Energia elétrica ao longo de todo ano

Como os condutos podem ser fechados a qualquer momento, a barragem pode reter o excesso de água durante uma estação ou período chuvoso, reservando água para as estações mais secas e garantindo assim a continuidade da geração de energia.

Isso permite que a barragem hidroelétrica produza energia o ano todo, independente do clima, ao mesmo tempo que evita inundações rio abaixo. Esses benefícios vêm, já há algum tempo, agradando os moradores da província de Hubei, na China.

Localizada perto da bacia do Rio Yangtzé, a região está sujeita a inundações calamitosas durante o período chuvoso, quando o fluxo desse rio é mais forte do que o normal durante o ano.

Impedir inundações e gerar energia limpa e renovável

Querendo resolver o problema e ao mesmo tempo tirar proveito da situação que a natureza estava proporcionando, foram feitos planos para a construção de uma enorme barragem, que transformaria essa hidrovia instável numa fonte de energia limpa, renovável e constante.

Hidroelétrica das Três Gargantas, na China
Hidroelétrica das Três Gargantas, na China

Uma obra homérica e ousada

A construção teve início em 1994, e os planos eram ousados para a época. A barragem deveria contar com 32 turbinas, 12 a mais do que a maior do mundo até então, que era nossa usina hidroelétrica, em Itaipu.

As turbinas forneceriam energia para duas centrais elétricas distintas, cada qual conectando-se à usina por uma série de cabos que medem centenas de quilômetros. A energia elétrica produzida na usina Três Gargantas poderia chegar às redes elétricas de Xangai, distante 1.000 km.

Contudo, os custos humanos dessa ambição foram elevados. Para criar o reservatório da barragem, seria preciso inundar mais de 600 km2 de terra acima do rio, o que incluía 13 cidades, centenas de vilarejos e mais de mil sítios históricos e arqueológicos. A construção empregou mais de 1,4 milhão de trabalhadores, e os programas de realocação do governo foram considerados amplamente insuficientes.

Partidos contra e a favor da construção

Muitos aproveitaram para argumentar contra essa construção tão controversa de diversos pontos de vista. Outros, no entanto, colocaram sobre a mesa as vidas que seriam salvas pela proteção contra as enchentes e inundações que a barragem proporcionaria, que era mais importante do que o trauma do deslocamento.

Além disso, elevar o nível da água do rio melhoraria a navegabilidade, aumentando a capacidade de embarcações transitarem por ele, transformando a região num conjunto de cidades portuárias mais prósperas, gerando emprego e renda para a população.

Hidroelétrica de Itaipu, no Brasil
Hidroelétrica de Itaipu, no Brasil

Conclusão do projeto e início das atividades

O projeto foi concluído apenas em 2012, e a partir de então a China tornou-se a maior produtora de energia elétrica do mundo. Em 2018 a barragem gerou 101,6 bilhões de quilowatts/hora.

Essa energia elétrica é suficiente para abastecer quase 2% da China por um ano, ou para fornecer energia elétrica à cidade de Nova York por quase dois anos. É uma quantidade de energia espetacular.

Mesmo assim, dois anos antes, outra barragem com menos da metade do tamanho, gerou mais energia elétrica, chegando à marca dos 103,6 bilhões de quilowatts/hora. Apesar da extensão recorde da Três Gargantas, a usina de Itaipu produzia mais energia.

Fatores que determinam a quantidade de energia gerada

Para entender porque Itaipu consegue superar Três Gargantas, é preciso analisar dois fatores que determinam a produção de energia de uma barragem. O primeiro é o número de turbinas, e nesse ponto a usina chinesa tem a maior capacidade do mundo, e teoricamente conseguiria produzir até 50% a mais do que a de Itaipu.

O segundo fator, entretanto, é a vasão de água, a força e a frequência que a água passando através das turbinas. A Três Gargantas se estende por vários desfiladeiros profundos e estreitos que afluem com água poderosa. No entanto, mudanças sazonais do rio Yangtzé impedem a barragem de atingir sua produção máxima teórica.

Já a usina de Itaipu está localizada sobre o que era antes a maior cachoeira do planeta em volume de água. Embora a construção da barragem tenha destruído essa maravilha natural, o fluxo de água constante permite que Itaipu gera mais energia de forma consistente a cada ano.

Hidroelétrica de Itaipu, no Brasil
Hidroelétrica de Itaipu, no Brasil

A rivalidade está longe de acabar

A rivalidade entre as duas barragens está longe do fim, e outros projetos como a Barragem de Inga Falls, na República Democrática do Congo, também estão disputando o título de usina hidroelétrica mais poderosa do mundo.

Mas o que quer que o futuro reserve, os governos precisarão garantir que o impacto ambiental e humano seja tão sustentável quanto a fonte de energia em si mesma e o que ela é capaz de produzir.